
A banda sueca vai substituir os Scissor Sisters que cancelaram a sua atuação no festival Festival Marés Vivas, 'por motivos de agenda'.

Poucos dias depois de ter lançado mais um disco de um dos seus projetos, Paulo Furtado, vocalista dos Wraygunn, esteve à conversa com a Forum Estudante sobre a sua banda, o álbum L’Art Brut… e não só!

Os Moonspell lançaram há poucos dias o seu mais recente álbum, “Alpha Noir/Omega White” e estão já a preparar o grandioso espetáculo do Campo Pequeno que acontecerá no próximo dia 12 (sábado). A Forum Estudante teve o prazer de estar à conversa com Fernando Ribeiro, o vocalista da banda portuguesa de metal mais famosa do mundo.
Em primeiro lugar, explica-nos o conceito deste trabalho dividido em dois.
É um álbum duplo, ou pelo menos uma coleta mais alargada de canções. Isto foi uma ideia que nos surgiu através da própria música. Nós quando começámos a compor, já há cerca de quatro anos, fizemos três canções: “Lickantrope”, “Love is Blashpemy” e “White Omega”. E vimos logo à partida que tínhamos duas soluções: uma que tínhamos tentado antes, que era num disco contar a história com estes momentos mais atmosféricos, de influência gótica e rock, e tínhamos outra com as músicas mais poderosas. O Pedro Paixão [teclista] disse aquilo que todos estávamos à espera: deveríamos orientar o princípio criativo para ter canções de metal, em continuidade com o [último álbum] Night Eternal, e alargar o espectro com canções mais atmosféricas. Enquanto criadores isto dá-nos a possibilidade de fazer uma melhor gestão dos nossos recursos criativos e ter uma certa liberdade quando nos aproximávamos das canções. Isto fez-nos sentir muito confortáveis. Quando pensámos na melhor maneira de editar o trabalho, nós e a nossa editora tivemos que lidar com este aspeto realista: o disco duplo poderia ser caro demais para uma pessoa. Por outro lado, lançar os dois álbuns em separado traria algumas vantagens em relação a tournée e mesmo em retorno financeiro para a banda, mas iria quebrar a integridade artística. O que nós fizemos foi saber que, por um lado, as pessoas que estão interessadas na experiência musical irão adquirir a edição especial e, por outro lado, só não toma contacto com a música, comprando ou roubando, quem não quiser.
Em que é que o Alpha Noir/Omega White é diferente dos outros álbuns de Moonspell?
Tal como os outros discos, este terá continuidade e ruturas, como é óbvio. É impossível, hoje em dia, ao passar pelo vigésimo ano de carreira, não utilizarmos a experiência e a carga musical que fomos construindo para continuarmos a ser uma banda original no metal europeu. Mas quando nos aproximamos do álbum novo, há que fazer jus à questão da novidade. Quando compomos, nem sempre estamos no mesmo estado de espírito, os tempos mudam, toda a gente muda e é importante nós representarmos essa mudança num álbum novo.
A agressividade no Alpha Noir terá alguma coisa a ver com o facto de terem feito um intervalo na música mais pesada para a tour acústica “Sombra”?
Quando fizemos a digressão “Sombra”, já tínhamos alguns temas do Alpha Noir compostos. Mas essa digressão veio trazer mais riqueza ao Omega White. Este disco com uma toada mais agressiva terá muito mais a ver com a nossa posição enquanto cidadãos do mundo. Nós vivemos num país que tem tudo para ser esquecido. Nós viajamos pelo mundo e observamos o pouco impacto que o nosso país tem lá fora. O que é facto é que Portugal hoje em dia acorda como um país que não tem condições para fazer frente a esta situação, porque as pessoas estão a perder a sua auto-estima, têm medo, perdem o amor pelo seu país e começam a acreditar nas mentiras que ouvem todos os dias. Eu acho que o Alpha Noir é positivo e, de alguma forma, uma resposta àquele tipo de literatura de motivação, de auto-ajuda, pelas letras e pela raiva do disco. Mas é uma raiva interior e controlada de pegarmos em nós próprios e, através da música, tentar fazer uma interpretação mais reflexiva e humana do problema. Os nossos estados de alma são tão importantes como a música.

Falaste há pouco nas letras e é interessante ver que decidiste escrever alguns temas em português. Qual foi a razão dessa decisão?
Ao longo da nossa carreira, fomos cantando em português em momentos mais especiais, em casos como o “Alma Mater” e o “Opium”. A relação com o português não mudou, ou seja, é uma coisa quase por instinto. Tem muito a ver com forma como ouvimos as primeiras maquetes e como as coisas estão a ser feitas. A “Axis Mundi” é uma entrada na arena, e tanto usamos o inglês, como o latim e o português, com uma pequena peça que tinha escrito num poema, de um novo livro de poesia que hei-de editar um dia [risos]. Naquele caso em concreto, parece-me apropriado porque remete para a velha lenda da espada de Dâmocles, que se aplica em termos poéticos ao que se vive hoje. A outra música, “Em Nome do Medo”, acaba por ser um dos momentos mais especiais do disco. Quando ouvi o instrumental, o meu instinto foi logo escrever uma letra em português. Talvez a influência mais presente tenha sido um trabalho que fiz com o Pedro Paixão e o Rui Sidónio para o Optimus Discos chamado Orfeu Rebelde, que recuperava como conteúdo lírico o Orfeu Rebelde do Miguel Torga. Portanto esta pode ser uma porta que se abre para coisas mais conceptuais que possa resultar nos Moonspell, sem qualquer tipo de resistência quanto a cantarmos em português.
Quais é que foram as principais inspirações para o disco?
Numa metáfora com a Roma Antiga, eu vejo o Alpha Noir como uma arena e o Ómega White como o quarto de descanso. Isto porque o primeiro é um álbum extremamente exterior, ou seja, nós ali encontramo-nos com uma audiência e estamos na prática a debitar uma mensagem e até uma certa moral. Nós procurámos fazer músicas com alguma profundidade. Temos um tema, chamado “Lickanthrope”, que reúne algumas figuras da literatura, e tem uma história entre várias personagens com uma moral ligada à ideia, como eu canto, de “we don’t want to be saved” [“nós não queremos ser salvos]. Num país como Portugal, ainda há pessoas a quem custa a acreditar que vou sempre usar cabelo comprido ou continuar a usar eyeliner preto, que vou ler Baudelaire, que vou a concertos de heavy metal, etc. Parece que as pessoas passam o tempo a oferecer-me salvação. E o Alpha Noir é mesmo a afirmação do que nós somos, admitida com naturalidade. E assim como o Alpha Noir é um grito, o Omega White é um murmúrio ou uma voz interior. É uma espécie de fiel depositário das pessoas que partilham a nossa vida, os desejos que não realizámos. A um nível musical, é um disco descomprometido, em que nos preocupámos que as coisas fossem memoráveis, e é um álbum que rivaliza muito com o seu gémeo mais zangado.
Vão dar um grande concerto de apresentação no dia 12 de maio, no Campo Pequeno, em Lisboa. Como vai ser o espetáculo?
Sim, temos estado a ensaiar e a montar o espetáculo. Vamos tocar os dois discos, queremos refletir ao vivo essa divisão de ambientes. E depois iremos buscar o nosso repertório antigo e dividi-lo também em Alpha e Omega. Vai ser um concerto a duas partes que se vão notar. Ou seja, o Alpha Noir terá um conceito completamente metálico, grande, barulhento, com muita energia onde vai ser usado um diverso número de efeitos num tipo de cenário que não vai ter nada a ver com o Ómega White. Nesse caso, a cor vai ser bastante neutra, vai apostar mais no vídeo e vai ser um concerto que vai fazer as vezes do tal género melancólico. Portanto, é um projeto muito grande mas nós queríamos manter o bom espírito que mantemos desde há quatro anos, quando começámos a compor. Este ano os Moonspell vão fazer muitas coisas pensadas em grande e estamos com o entusiasmo de uma banda jovem, queremos mergulhar em águas que não sejam tão claras, digamos assim, porque detestamos estar na zona de conforto. Apesar de tudo o que já conseguimos, com trabalho e humildade, queremos conquistar mais. E a única maneira é “pegar na espada” e liderar a nossa própria batalha.
Como vai ser a tour? Vão ter mais espetáculos no mesmo registo do Campo Pequeno?
Num mundo ideal, quereríamos fazer mais concertos como o do Campo Pequeno, mas esse vai ser especial e exclusivo para Lisboa, porque é a nossa cidade e está no nosso País. E nós aqui, provavelmente, conseguimos dar um passo que noutros países seria difícil. E queremos também incluir Portugal neste arranque, acho que faz todo o sentido e todos os portugueses vão compreender isso. Mas claro que vamos fazer uma tour por diversos países, como a Holanda, Áustria, Bélgica. Vamos estar também em Wacken [um dos maiores festivais de metal do mundo]. Até ao fim do ano vamos andar sempre pela Europa: Chipre, Bulgária, Turquia… Ainda vamos anunciar outros concertos para datas portuguesas. E terminamos o ano em beleza porque fomos convidados a participar na nossa segunda edição do Cruzeiro do Metal, que parte de Miami, vai até às Bahamas e regressa para os Estados Unidos. Vamos estar muito tempo na estrada e isso é muito importante.

Há bastantes pessoas que viram o espetáculo do “Sombra” e ficaram com muita pena de não terem gravado um disco nesse registo. Há planos para isso?
Planos temos sempre! E nós temos o “Sombra” gravado, quer áudio quer vídeo, para uma possível edição. Mas eu acho que, ao contrário do que se faz hoje na indústria musical, as coisas devem ser distribuídas no tempo. Nós fizemos este espetáculo para aproveitar algumas das boas coisas que Portugal tem, como a boa rede de auditórios. As bandas hoje devem ter muitos conteúdos mas também não podem jogar as cartas todas de uma vez, porque acaba por ser prejudicial para toda a gente. A edição não está fora dos nossos planos. Provavelmente não gravaríamos um álbum acústico de originais, mas não é um plano imediato. Mas isto não quer dizer que daqui a um ou dois anos não aconteça.
Uma questão mais pessoal: Foste pai do Fausto há poucos dias. Como é que vais conciliar essa agenda tão preenchida com essa tua nova função na tua vida?
Nós tínhamos muitas ofertas de espetáculos para o mês de abril mas eu queria estar cá porque este é um dos momentos mais importantes. Mais para o fim de Maio, já terei de voltar ao trabalho e a Sónia [Tavares, vocalista dos The Gift e mulher de Fernando Ribeiro], passado outro mês, também. E nós o que queremos é que, dentro da rotina e da normalidade que as crianças possam ter, o Fausto se habitue desde logo a este nosso estilo de vida. As pessoas criam a ideia de que as crianças são criaturas frágeis mas também vejo o Fausto como um ser que absorve tudo. Como tal, é nesse caminho que vamos seguir, vamos levar o Fausto ao nosso mundo, que é o mundo da estrada e dos hotéis. Contamos com ele. Não querendo ser otimista demais, penso que tanto eu como a Sónia conseguiremos dar conta do recado.
Fotos por Paulo Moreira

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