O português caçador de sonhos

  

cinema cristiano

'Sarapanta' é um filme que nos inspira a seguir os nossos sonhos. Em jeito de diário, este documentário acompanha a aventura de Cristiano Saturno, um português no Alasca com "a pancada" das auroras boreais. Mais do caçá-las, este jornalista musical sem qualquer formação em Cinema rende-se a elas: uma maravilha do universo que nos faz sentir mínimos e, simultaneamente, gigantes. Um alerta à necessidade da contemplação.

A história deste documentário começou há 44 anos, no Porto. Foi lá que nasceu Cristiano Saturno (Pereira, de nome de batismo), um filho do meio muito especial. Há cerca de 18 anos, mudou-se para Lisboa, para exercer jornalismo musical num jornal diário. Em 2011, numa viagem à Lapónia finlandesa, ficou completamente fascinado com as auroras boreais e começou a ler bastante sobre o assunto. Foi aí que germinou o desejo de realizar um documentário sobre este fenómeno natural que tem tanto de algodão doce como de mercúrio num tubo de ensaio, que às vezes parece uma moca de LSD, outras a tela de um Picasso. Tudo isto fica claro em 'Sarapanta'.

Sarapanta

Este documentário – com 40 minutos de duração e em inglês – é o resultado de uma viagem incrível pelo Alasca, vizinho do Canadá onde Cristiano vive há um ano. «Este documentário era o que mais queria fazer na vida», conta à FORUM. Os 19 dias previstos de aventura esticaram para 45. Tudo financiado com poupanças próprias e sem que este caçador de auroras tivesse qualquer formação em cinema. É por isso que este filme é «um bocado tosco», nas palavras do seu criador. Não há truques de imagem ou de som: "what you see is what you get".

As imagens falam por si, ainda que o filme tenha depoimentos de habitantes locais que podem assistir a esta maravilha da Natureza sempre que desejarem. «É melhor do que ir ao cinema», dizem às tantas. Bem, para quem não tem tal privilégio, 'Sarapanta – Chasing the Northern Lights' é um excelente placebo. «Não queria fazer uma abordagem científica. Estava mais interessado nas emoções e na poesia», explica Cristiano Saturno.

Com partida em Fairbanks – no centro do Alasca e um dos melhores sítios do mundo para ver auroras boreais - e com março no calendário - outra escolha que não foi à toa) – Cristiano, que numa primeira fase ia só «tentar fazer um vídeo ou uma reportagem», pôs-se assim, para citarmos o filme, «no bom caminho».

O timbre grave do narrador dá voz aos pensamentos do autor deste filme que nunca teve guião. O texto, tão belo como a banda sonora, faz-nos refletir sobre o que vemos, mas também na cegueira que pode ser uma sociedade tecnológica e pouco contemplativa, em que estamos conectados nas redes sociais mas não connosco próprios. «A partir do momento em que cheguei ao Alaska, tentei sempre afastar-me o máximo possível das luzes da cidade ou povoações. Foi por isso que optei por ficar em cabanas na floresta. Isolei-me um pouco para não ter poluição luminosa. É muito intenso estar sozinho, no meio do nada, a ver um espetáculo daqueles no céu. Quando dás por ti, estás a sentir que aquilo é uma experiência religiosa ou algo do género», conta Cristiano que, a meio caminho, arranjou um parceiro de viagem, «um francês meio louco».

Sarapanta 3

As imagens do autor, que adora «o norte, o gelo, as florestas imensas, as distâncias enormes», nitidamente exausto, enregelado, mas expetante, ilustram a dureza física que foi esta demanda. Enfrentou o medo do sombrio e do desconhecido, para não falar nos lobos e nos alces. «O Alasca é um território imenso, selvagem e perigoso. Ouves barulhos e não consegues perceber o que são ou de onde vêm», confessa. «Tive umas 3 ou 4 experiências muito intensas, sozinho, no meio da floresta, com auroras que estavam de tal forma intensas - eram enormes, com cores brilhantes e movimentos muito rápidos - que eu não percebia se chorava ou se ria. E o facto de estar sozinho a olhar para aquilo levava-me a pensar que o mundo inteiro devia estar ali para sentir o mesmo».

'Sarapanta' já esteve em exibição na Rússia, bem como em festivais nacionais como o Muvi (Lisboa) e o Porto/Pos/Doc. Em breve, seguirá para a Corunha (Espanha), pelo que a viagem, apertem os cintos, ainda agora está a começar. «Quero apenas partilhar o que vi, ouvi e senti», confessa o realizador autodidata que já começa a pensar no próximo filme. «Será sobre coisas que se movem no ar ou sobre a procura de algo maior que nós. Interessa-me a nossa capacidade de deslumbramento e explorar dimensões híbridas, espaços vagos que não percebemos bem o que são. Tentar encontrar poesia na Natureza».

Sarapanta 2

 

Sarapanta: vem do verbo sarapantar. O mesmo que "atordoa, perturba, espanta, confunde, pasma".
Aurora boreal: fenómeno ótico composto de um brilho observado nos céus noturnos nas regiões polares, em decorrência do impacto de partículas de vento solar com a alta atmosfera da Terra, canalizadas pelo campo magnético terrestre.