«Isto já não é só um vício ou uma brincadeira»

  

eAtleta

Chama-se Igor "Pika" Martins, tem 18 anos, nasceu em Almada mas vive na Charneca de Caparica. Jogador de Counter-Strike: Global Offensive, representa atualmente a equipa Pro dos Galatics Esports Club, depois de assinar o seu primeiro contrato profissional enquanto gamer. Concilia a sua vida de aAtleta e as "muitas horas à frente do computador" com os estudos, uma vez que acabou de entrar na universidade, para tirar uma licenciatura em Educação Física e Desporto. "Para chegar onde estou hoje tive de trabalhar muito", realça.

 

Como tudo começou
O início da minha carreira no mundo do Gaming, mais concretamente no 'Counter-Strike: Global Offensive' (CS:GO), deu-se a novembro de 2014 – um mês depois de adquirir o meu verdadeiro primeiro computador. Ao início era só mais um jogador que jogava com alguns amigos, mas sempre com vontade de ganhar. Quando consegui juntar 4 amigos num lobby de 'CS:GO', tive a ideia de criar a minha primeira equipa. Fizemos um logo e demos um nome à equipa muito original: escolhemos a letra inicial de cada nick dos 5 membros da equipa, e à volta desse conceito, formaram-se então os KATIN. Foi, acima de tudo, uma altura de aprendizagem e adaptação ao jogo, onde o compromisso ainda não era muito grande. O objetivo era apenas mantermos sempre o mesmo lobby, ter alguma vantagem sobre os adversários naquela competição e subir no ranking.

Subir no ranking até ao Pro
Para quem começou no escalão Silver 1 e chegou à Global Elite, confesso que não foram tempos fáceis. Acima de tudo, foi muito demorado. Foram passando longos meses e, depois de perceber que este era "o" jogo, comecei a pensar um pouco mais a sério no que toca a equipas. Desde então, foquei-me nesse tipo de projetos. Para chegar onde estou hoje, tive de trabalhar muito e sofrer muitas alterações em termos de equipas e também de organizações. Há cerca de um ano encontrei estabilidade após a minha entrada para os Galatics e, desde então, foi menos um problema com que me preocupar. Foi só uma questão de ir tentando alcançar, juntamente com outros jogadores, um bom nível de jogo, para finalmente ter a oportunidade que estou a ter agora: a subida para a equipa profissional da organização e, consequentemente, a assinatura do meu 1º contrato de jogador.

Jogar e Estudar
Ao longo destes anos, sempre segui o meu sonho: receber com este jogo algo em troca das horas de trabalho que coloco em todos os projetos em que participei. Também para que possa mostrar aos meus pais que é possível jogar e estudar, tirando partido dos dois. Os meus pais nunca foram muito apologistas de que eu seguisse este caminho e, lá pelo meio, tive alguns altos e baixos, por isso mesmo. Quando me fizeram a proposta para representar a equipa Pro, senti que era o reconhecimento de todo esse trabalho e, de certa forma, deu a entender aos meus pais que isto já não é só um vício ou uma brincadeira, como durante muito tempo o foi. Antes de chegar a este patamar, representei durante praticamente 10 meses a organização, tanto enquanto Academia como equipa Evolution – que são como os escalões de formação mas onde as idades não são a regra principal. Desde que tive a minha primeira promoção de Academia para Evolution, senti que podia levar isto para a frente, de forma a chegar ao meu objetivo, e assim foi. Acima de tudo, senti o meu trabalho recompensado, porque sabia que a oportunidade ia chegar mais cedo ou mais tarde.

Rotinas de treino
Entrei este ano para a universidade, com o intuito de me licenciar em Educação Física e Desporto, e tenho aulas das 14h até às 18h. Demoro uma hora no regresso a casa e, assim que posso, ligo o computador para libertar um pouco o cansaço das aulas e dos transportes públicos. Por norma, os nossos treinos começam às 21h00 e terminam às 01h00. Isto durante a semana. Ao fim de semana, utilizamos um dos dias para treinar, mediante as nossas disponibilidades, e o outro para folgar. As terças são o nosso dia de folga fixo. Tento chegar às 15 horas de treino semanais pois, para além de ser o membro mais novo da equipa, sou também o IGL [In-Game Leader, o capitão] da mesma. Assim sendo, o planeamento dos treinos é por minha conta, com ajuda do nosso treinador. Não sou muito de viajar nem de sair só por sair, por isso, passo muitas horas à frente do computador e isso resume parte dos meus últimos anos. Sobretudo depois de ter deixado o futebol, ao fim de 10 anos de federado, devido ao cansaço excessivo.

Apurar a técnica
A nível individual, existem muitas formas de treino específicas. Porém, a que atualmente aplico por achar mais adequada para mim passa por fazer um ligeiro aquecimento dentro do jogo, antes das partidas importantes. Nos dias de treino, como jogamos durante tantas horas seguidas e é apenas um treino, sei que mais cedo ou mais tarde vou estar ao meu nível.

Aposta no futuro
No que toca a fazer disto vida, ou a ter um futuro como eAtleta, ainda tenho as minhas dúvidas. Atualmente, salvo raras exceções, é muito difícil tirar um ordenado mínimo ou até perto disso como jogador. Porém, acredito que, com a evolução que esta área está a ter, vai haver cada vez mais investimento. Vamos chegar a um ponto em que a maioria dos jogadores, mesmo não recebendo o ordenado mínimo, vão utilizar isto como um género de um part-time, em que podem conjugar com um trabalho ou até com outro part-time. Sinto que já existe uma pequena melhoria com a profissionalização recente de duas equipas portuguesas. Isso chama também novos investidores e interessados neste mercado.