Estes loiros matam-nos

  

Para sermos justos, Josh Homme e Matt Berninger não foram os únicos a fazer o que quiseram da multidão reunida no segundo dia do NOS Alive. Também Eels e Japandroids pegaram o público pelos colarinhos.20180712 NOS ALIVE THE NATIONAL ARLINDO CAMACHO 0076

Tanto os The National como os Queens of the Stone Age (QOTSA) têm o seu próprio culto em Portugal. Os primeiros talvez direcionados para um público mais "adulto", seja lá o que isso for, os segundos para os que (mesmo) já adultos não se rendem ao sistema. Assim, à partida, estavam reunidas as condições para dois concertos memoráveis no Palco NOS ao segundo dia de música no Passeio Marítimo de Algés. As bandas tinham vontade de seduzir. O público estava mortinho por ir na canção do engate.

Não foi difícil a conquista, portanto, o que não quer dizer que o namoro não tenha tido um sabor especial. Estes loiros (ou ruivos, ou já grisalhos) mataram-nos com o seu carisma. Observar Matt Berninger foi como mirar um paradoxo: de aspeto formal, qual intelectual de fato impecável, mas de cabelo desgrenhado, imprimindo uma atitude rock em cada palavra cantada, mesmo que sob melodias serenas, ele puxou pelo público, mexeu-lhe, fundiu-se nele até ao primeiro bar a contar da esquerda de onde atirou uma imperial pelos ares, para delírio dos festivaleiros molhados.

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Já Josh Homme é outro fenómeno de popularidade nacional, bad boy incorrigível, cujo charme implica uma grande dose de mau feitio, diz-se por aí. Ao vivo, os QOTSA não têm piedade e arrastam tudo à sua frente. Mesmo apesar do péssimo som no início do espetáculo e de este ter arrancado com os temas do novo Villains, a banda soube depois recuperar os hinos que a catapultaram para as bocas do mundo e de que toda a gente estava à espera. Juras de amor que, de tão repetidas, já acreditamos nelas fizeram o resto do serão.

Depois desta pujança rock seguiu-se o mood dançável dos Two Door Cinema Club, habitués em palcos nacionais e que não sabem dar maus concertos. O Palco NOS começara ao ritmo dos islandeses Kaleo, entre o rock e o folk, e suportados no timbre especialíssimo de JJ Julius Son. Ainda de dia, tocaram os Black Rebel Motorcycle Club, estes com o novo álbum na bagagem, 'Wrong Creatures'. Errado foi alinhá-los tão cedo nesta maratona, num horário que em nada beneficiou a estética rock psicadélica da formação californiana.

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Enquanto isso, os Eels saboreavam a glória, num concerto perfeito do princípio ao fim, que abarcou vários períodos da sua carreira, desde os grandes hits agora com nova roupagem, às canções do recente The Deconstruction, sem esquecer uma cover de Prince. Mr. E libertou-se do ar de sorumbático, saiu da concha, comunicou com os fãs, teve prazer em dar prazer. A vida corre-lhe bem, é visível. E a nós também enquanto assistirmos a performances assim.

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Entre a plateia esteve também Brian King, vocalista dos Japandroids que minutos antes haviam provado que duas pessoas em palco podem parecer e encantar uma multidão. De direta desde o festival Mad Cool em Madrid (onde também atuaram os Eels e os Pearl Jam), a dupla frisou que todo e qualquer esforço era compensado por tamanha receção e cumplicidade. A energia que emana destes dois músicos mexe, de facto, com os nossos circuitos integrados. E ali ao lado a brasileira Mallu Magalhães dava um doce concerto surpresa no Palco Coreto, ilustrando a variedade de propostas sonoras deste festival que, em três dias, abarca 125 concertos. Hoje há Alice in Chains, Franz Ferdinand, Jack White, MGMT. E uns tais de Pearl Jam, claro.

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 (Fotos de Arlindo Camacho e Hugo Macedo)